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Os cyberefugiados de Tóquio
Blog | Achados na Web 2.0
Ter, 27 de Abril de 2010 10:41 Escrito por TOMOKAZU KOSUGA para Revista VICE

CONHEÇA A NOVA GERAÇÃO DE JAPONESES SEM-TETO VICIADOS EM INTERNET

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ILUSTRAÇÃO SHINTARO KAGO

Naquela velha disputa para decidir que país tem os melhores cybercafés do mundo, ninguém consegue competir com o Japão. Os cybercafés de lá têm quartos privativos, cada um com um computador, uma televisão e uma cadeira reclinável. Lanches são vendidos no balcão de atendimento e, não importa o quão bagaceiro seja o lugar, sempre tem refrigerante de graça. Isso mesmo, refrigerante de graça! Alguns têm até chuveiros e todos têm um ótimo estoque de mangás. A maioria fica aberta 24 horas por dia, sete dias por semanas, então, se você ficar com sono enquanto está fazendo algo importante na internet, é só reclinar a cadeira até que ela vire uma espécie de cama e relaxar. Antes que você perceba, o sol já estará nascendo na "terra do sol nascente" (não que você realmente vá ver isso de dentro de sua cubículo). Mas isso não importa, porque você acaba de ter uma estadia confortável na maga-cara terra japonesa por uma barganha de ¥1,000 a ¥1,500 (R$ 20,00 a R$ 30,00) por noite. Agora pense na rapidez do aumento do número de japoneses desempregados e sem casa e você logo vê o resultado: a mais nova geração de japoneses sem-teto.

O fato é que quanto mais estes sem-teto descobrem que este tipo de acomodação está disponível a um preço tão baixo, mais a prática de procurar um abrigo noturno em cybercafés se torna comum na sociedade japonesa. De acordo com um estudo feito pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social em Tóquio e Osaka em 2007, mais de 5.400 pessoas, mais conhecidas como cyber-refugiados, passam a noite em cybercafés. Normalmente são trabalhadores que sobrevivem do dinheiro ganho ao final de cada expediente. O ministério cita pessoas na faixa dos 20 anos como sendo a maioria desses sem-teto (27.7%) seguidos por pessoas na faixa dos 50 anos (25%). Entre os refugiados de Tóquio, metade diz que a demissão do trabalho é razão pela qual perderam suas casas. As estatísticas de 2008 ainda não estão disponíveis, mas sem dúvida cresceram junto com a taxa de desemprego.

Em Tóquio, a renda média desses refugiados é de ¥107,000 (mais ou menos
R$ 2.300,00). Os gastos mensais variam em torno de ¥100,000. Não é de se espantar que eles não consigam juntar os tradicionais quatro meses de aluguel necessários para deixar como depósito, para poder ter um endereço fixo e, assim, se qualificarem para um emprego regular.

O Serviço de Apoio aos Refugiados em Cybercafés surgiu em Tóquio e Osaka após a mídia sensacionalista rotular esses cidadãos de "sem-teto escondidos". Apenas os frequentadores dos cybercafés que moram em Tóquio e não conseguiram uma residência fixa nos últimos seis meses podem ser ajudados por esse serviço. Obviamente, isso isenta a vasta população pobre da consulta. Coincidentemente, o escritório deles fica em Shinjuku's Kabukicho, o bairro de entretenimento mais perigoso e sedutor de Tóquio. Detalhe, o bairro também tem a maioria dos cybercafés da cidade.

Antes mesmo de visitar os burocratas em Kabukicho e de me aventurar nos mais famosos cybercafés da cidade, decidi fazer um test-drive em um estabelecimento menos conhecido da região. Para me preparar, fiquei uns dias sem me barbear, pentear o cabelo ou até mesmo tirar minha camiseta suada. Simples, né? Me tornar um deles, viver como eles e ter uma experiência de verdade para colocar na minha história. Mas, chegando lá, me disseram que o local estava cheio e que tinha uma lista de espera. Foi um jeito educado de dizer "nem fodendo vamos te dar um quarto, seu sem-teto do caralho". Isso me deu certeza de que eu parecia um cyber-refugiado. O que eu poderia fazer, além de ir me juntar aos meus compatriotas?

Lá fora vi um homem de uns 30 anos resmungando sozinho e perguntei: "Ei, quer tomar café da manhã comigo? Por minha conta. Detesto comer sozinho." Mas ele me olhou como se eu fosse um maníaco e saiu fora. Abordei outros dois refugiados com o mesmo papo e nada. Será que eu parecia uma bicha psicopata procurando um sem-teto para estuprar e matar? Talvez. Vivi ao lado deles por uma semana e não consegui fazer nenhum contato, o que faz sentido, já que quase todos são trabalhadores temporários, renegados por boa parte da sociedade japonesa. Isso tudo além de serem sem-teto - uma condição extra de embaraço em um país em que a questão da vergonha é parte dominante da cultura - não é de se admirar que essa pessoas são avessas a estranhos. Relutantemente mudei de tática e me vesti como um repórter, mas toda vez que eu me aproximava de alguém, já recebia um negativa antes mesmo de terminar a primeira frase.

Acabei indo ao subúrbio de Kamata, que saiu muito na mídia por ser um foco desses refugiados. Escolhi o cyber mais citado nas reportagens, que fica a poucos minutos do metrô em um prédio de dez andares caindo aos pedaços. Uns caras invocados e desleixados vagavam por ali. E sem dúvida, em um canto tinha uma lanchonete e em outro uma coleção de mangás. Sete da noite, inesperadamente, um grupo de estudantes entrou no cybercafé para estudar. Os cyber-refugiados ficaram esperando o tempo dos estudantes terminar, na maior impaciência, fungando nas suas camisetas imundas ou desconfortavelmente trocando o pé, que apoiavam na parede, de tempos em tempos.

Este cybercafé tem dois tipos de quartos: aqueles com tatames no chão e televisão, e aqueles com uma cadeira, uma mesa e um computador. Já que os quartos com tatame têm apenas uma TV e nenhuma cadeira, acho que o espaço extra deve ser usado só para dormir. Optei pelo quarto individual, que custa uns ¥100 por hora. Comparado com os ¥400 por hora, cobrados na maioria dos cafés, o preço deste explica sua popularidade. O aluguel era para meio quarto, separado por uma cortina e, como os outros, sem nenhuma segurança ou privacidade. Os roubos entre os refugiados são cada vez mais frequentes. Têm armários em todos os andares bem ao lado dos elevadores. A TV e o computador ficam amarrados a uma corrente grossa presa por um cadeado, ambos em más condições. Estavam faltando teclas no teclado do computador. O chão estava cheio de marcas de cigarro e lixo e a parede estava descascando. Legal para uma acomodação japonesa, né? Tudo isso em um espaço grande o suficiente para eu me apertar entre a mesinha e a cadeira reclinável. Mesmo assim, como de costume, os japoneses conseguem encontrar conforto em espaços pequenos, e eu não sou exceção. Se não fosse meu vizinho fumante, poderia jurar que o ambiente era aconchegante. A maioria dos clientes do café eram bronzeados e vestiam uniformes sujos de pedreiro. Nem preciso dizer que não vi nenhuma mulher por lá. Também não vi muitos jovens além daqueles que foram estudar lá depois da aula, que de acordo com as estatísticas do governo, são a maioria dos refugiados. Na verdade, eu só vi um jovem (que não falou comigo, claro). Os clientes que vinham dormir no cybercafé eram divididos entre homens que pareciam ter uns 30 ou 40 anos e homens mais velhos, de 50 a 60 anos. Será que os jovens que o governo mencionou iam lá só pra estudar? Isso nos leva ao caso mais bizarro de programa de auxílio do governo. Eles ligaram para os cybercafés de todo país e perguntaram qual a média de clientes que pernoitavam neles e também quantos faziam isso pelo menos metade dos dias da semana. A verdade é que como os dados são baseados na memória dos donos dos cybercafés, eles não são confiáveis. Ah, eles também deixam questionários em 146 cybercafés (selecionados a dedo) para os clientes preencherem, mas quantos desses caras você acha que sequer olharam para eles?

De volta em Tóquio, fui para as áreas pobres de Kabukicho atrás do tal Serviço de Apoio aos Refugiados em Cybercafés para que me ajudassem a entender o problema dos refugiados e o papel do governo nisso. Andei por mais de uma hora e meia durante os horários de patrulhamento indicados no site da organização mas não achei ninguém. Liguei para eles na manhã seguinte e me disseram que a patrulha tinha sido cancelada às 19h30 por causa de um tufão que se aproximava. Eu disse que nem tinha chovido no dia anterior e eles me disseram "Isso foi provavelmente determinado por um funcionário do turno da noite. A patrulha realmente existe e tem como função encontrar e falar com refugiados, mas é melhor você marcar um horário por telefone e vir aqui nos visitar do ficar andando por aí procurando o pessoal da patrulha". Certo, então para que anunciar as patrulhas no site se eles não querem serem procurados pelas pessoas? "Bem, é que nem todo mundo checa nosso site regularmente" Então tá, esses refugiados, que o próprio governo acha que são jovens consumidos pela internet, que estão vivendo em cybercafés, não usam a internet para achar formas de ganhar dinheiro fácil. Faz muito mais sentido eles usarem o telefone, né? Este tipo de incompetência do sistema levou à criação de um novo sistema de empréstimo. Ele oferece ¥150,000 por mês para despesas com acomodações e necessidades básicas por um período de três a seis meses, com a condição do receptor participar de um treinamento oferecido pelo governo. Como estagiários, que ganham menos de ¥1.5 milhão por ano, são isentos de quitar o empréstimo, podemos dizer que este é, essencialmente, um pacote de benefícios. Bom para eles. O governo vai investir ¥100 milhões nessa iniciativa. Mas só os trabalhadores com menos de 40 anos, que normalmente dormem em cybercafés, poderão participar do programa. Ou seja, os homens de meia-idade e os idosos não terão assistência. E tem outra coisa, como vai custar em média ¥700,000 para manter um refugiado, só uns 200 deles vão se beneficiar. Apenas 27% dos 5.400 refugiados catalogados pelo governo. Sei que isso é só um monte de números, então vou colocar de outra forma: o governo japonês está tentando apagar um fogo furioso com uma conta-gotas cheio de cuspe, e muitos trabalhadores idosos sem-teto vão passar um tempão na internet em 2009.

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1 Comentário(s)

  1. Esse serviço já existe a alguns anos, dependendo do cyber existem capsolas para descanso.

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